Um pouco de impiedade pode ser o bisturi que faz a diferença numa cirurgia em que um problema é extirpado...
Não sou ciumento, sou atento!
Relações Perigosas com Claudio Athiery e Frederico Bilheri foto de Debora
O silêncio não significa que eu esqueci...
Na verdade ficamos tentando entender o outro, para nos darmos desculpas em insistir em algo que não tem futuro, é difícil desapegar, seria mais simples que as pessoas ficassem próximas por prazer, por se complementarem, o problemas que muitas dessas relações são baseadas em interesses e não no "gostar"... E isso tudo gera, infelicidade, desconfiança, traições, mentiras e ciúmes...
Tudo isso para não admitir que aquela relação fracassou!
Existem
dois tipos de agressão: A física, que sentimos logo na própria pele e a
emocional, que acaba ferindo mais. Pois
geralmente, essa segunda, não tem cura. A física você geralmente se defende,
ataca, depois há o período de recuperação; às vezes deixa cicatrizes, mas sara.
Já a emocional vai aos poucos minando, te destruindo, te deixando triste,
apático, depressivo. E é o que anda acontecendo comigo. Ouço elogios de todos,
cantadas, lisonjas, mas de onde mais deveria ter carinho é exatamente de onde
recebo mais frieza, descaso e descuido. Nunca recebo carinho pela manhã, mas
sim só patadas. Nunca recebo palavras calorosas , mas sim depreciações diárias. E porque? Pra que aturo tudo isso? Não me acrescenta em nada, ando me afastando
de mim cada vez mais de mim...
Claudio Althiery e Valeri Rodrigues - Fotos Tatiana Guinle
"A insatisfação é o primeiro passo para o progresso de um homem ou de uma nação."
Oscar Wilde
Quando não existe mais nada além do desejo, quando ele acaba o que sobra?
O que é Repulsa?
Ato ou efeito de repelir, repugnância, aversão...
(Fotos do texto de caráter ilustrativo clicadas por Tati Guinle, tiradas a partir do projeto de estudo/pesquisa de Valeri Rodrigues - PERformance - Atores: Valeri Rodrigues e Claudio Althiery)
Classe gramatical de perigo: Substantivo masculino
Separação das sílabas de perigo: pe-ri-go
Possui 6 letrasPossui as vogais: e i o
Possui as consoantes: g p r
A palavra Perigo escrita ao contrário: ogirep
Significado: Estado, situação de uma pessoa que corre grandes riscos
"Até que ponto eu vejo o outro como outra pessoa, até que ponto perco a objetividade e o vejo como um espelho de mim? Todos nós tendemos a projetar coisas de nossas almas sobre as outra pessoas, em maior ou menor grau, e em alguns momentos específicos. Avaliar melhor se aquilo que você tanto critica ou elogia em seu próximo está realmente no outro ou se é algo seu que se encontra projetado"
Claudio Althiery - Foto Rany Carneiro
PERIGO
Realizado no dia 17 de novembro de 2011, no CLA da Unirio.
Sentado num saco plástico preto com uma placa no pescoço que continha os seguintes dizeres: “Perigo (sendo que o O era um coração) – Não se aproxime” iniciei a performance às 12:32 de uma quinta feira meio nublada. Havia também um pote roxo, não visível aos transeuntes, no qual continha balas de chocolate.
Basicamente o público teve quatro tipos de comportamento:
a) O do não confronto. As pessoas abaixavam a cabeça para não “ver”, tendo assim um comportamento um pouco parecido de quando “vemos” algo na rua, como um pedinte, que não queremos ver; simplesmente não travamos contato visual, nos isolando em nosso próprio mundo.
b) O da fuga, buscando uma justificativa. As pessoas literalmente se afastavam, brincando ou fingindo entrarem no jogo, e já iam se justificando. “Está escrito perigo”. “Está mandando não se aproximar”. Com algumas pessoas acabei entrando no jogo e perguntava:
“Você tem medo do perigo?” Essa pergunta provocava geralmente risos e algumas piadas.
Também cheguei a perguntar: “Você faz sempre o que te mandam?”
Essa indagação gerava um certo constrangimento reflexivo por parte das pessoas, que não respondiam, mas que nitidamente era um questionamento que elas mesmas começavam a se fazer.
c) O flerte: Outros ficavam olhando timidamente, meio querendo saber o que estava acontecendo, meio fugindo. Não provoquei esse grupo, apenas sorri e naturalmente recebia um aceno de cabeça ou um sorriso de volta.
d) Os que interagiam: Sempre me davam um beijo.
Para esse grupo eu oferecia uma bala, após demonstrarem surpresa pela "recompensa" por se arriscarem, era inevitável algum comentário de como pode ser bom "correr algum perigo".
Claudio Althiery na performance "Perigo" - Foto Rany Carneiro
"Não existe meio mais seguro para fugir do mundo do que a arte, e não há forma mais segura de se unir a ele do que a arte."
Johann Goethe
Estamos cada vez mais nos isolando com medo do outro, do perigo que o outro representa. O outro é aquele que pode nos magoar, nos ferir, roubar nossos bens e o nosso coração. Nos protegemos de uma ameaça. Nos protegemos de um perigo fruto de nossa mente, fruto de nossa sociedade que produz fantasmas... No fundo nos protegemos de nós mesmos, de um perigo que existe na ideia que fazemos do outro.
Misturando Arte Conceitual e Performance no Campus do CLA, a proposta intitulada “Perigo / Anulação” consistia em ter uma caixa num tamanho que caberia uma pessoa dentro, essa caixa foi totalmente envelopada com várias imagens recortadas, formando um mosaico do que os nossos olhos ingerem ao absorverem diariamente a cultura pop, ao lado dela acabou ficando uma sacola colorida de compras e uma mochila. Em “Anulação” de Michelly Barros, o questionamento era a nossa anulação diária, sumimos diante das coisas, nos escondemos diante dos outros e como é que o “outro” nos vê se no fundo ele não nos enxerga já que não nos mostramos? Ao lado desses objetos a performance “Perigo” de Claudio Althiery dialogava questionando o perigo em se relacionar com o “outro”. E que outro é esse que nos mete tanto medo? Por que se eu sou o outro dos outros, eu não sou então um reflexo do outro e o outro não sou eu refletido no outro?
Foto Rany Carneiro
"Quando escrito em chinês a palavra crise compõe-se de dois caracteres:
um representa perigo e o outro representa oportunidade." John Kennedy
"O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer a mulher: o jogo mais perigoso." Friedrich Nietzsche
Quando me inscrevi para fazer a matéria ATAT, ministrada pela Professora Tânia Alice, no Curso de Artes Cênicas da UNIRIO, não tinha a menor idéia do que estava me aguardando. Por se tratar de uma matéria teórica, achava que iríamos ler alguns textos, alguns capítulos de uns livros e pra variar...mais alguns textos. Porém na primeira aula o meu mundo “caiu em pedaços”. Teríamos que associar uma parte prática à teórica. Fora proposto à turma que fizéssemos um reenactment, trocando em miúdos, eu teria que reconstituir uma performance histórica.
Primeiro rolou aquele frio na barriga.
Como assim fazer uma performance? Essa matéria não é TEÓRICA? Não tinha a menor ideia do que iria fazer...Após algumas semanas de fuga, reflexão e sofrimento, adicionando mais uma dose de fuga, acabei me deparando, através do livro “Performance nas artes visuais”, da Regina Melim, com uma performance da Yoko Ono chamada Cut Piece, a princípio achei ela “inofensiva”. Sendo muito sincero, não fiz uma ponderação sócio – político – cultural – educativa do porque ter escolhido essa em questão, tinha que escolher uma, escolhi, simples assim. Me simpatizei e pronto. Quando minha busca parecia ter tido o fim, descobri que mais três companheiras de ATAT, também tinham, se interessado pela mesma performance. Daí pensei: “Aff, melou, muita concorrência, e nem vou ter chances de fazê-la, até porque sou homem e a original tinha sido feita por uma mulher!”
Antes que resolvêssemos nos tesourar para decidir quem iria fazer a Tânia sugeriu que os quatro fizessem a performance. Com um papo rápido com Rany, Tati e Vanessa (minhas companheiras nessa aventura) é que comecei a pensar na performance em si, no que a Yoko queria e comecei a me perguntar porque de fazer essa especificamente. Porque eu um homem ocidental estaria recriando uma performance que uma mulher oriental tinha concebido? Porque eu entre tantas possibilidades escolhi uma em que eu poderia até ficar pelado? Seria ingenuidade não prever os rumos que tal ato poderia resultar. As meninas preocupadas com o cabelo e eu com a exposição. Yoko já havia realizado essa performance em três ocasiões. Em 1964 no Japão, repetindo a experiência em 1965 no Carnegie Hall e em setembro de 2003 no Paris’s Ranelagh Theatre, ambas em Nova York.
Em Tokyo, a performance Cut Piece fez com que Yoko Ono se tornasse notícia internacional. Tendo o Vietnã como leitmotiv, fio condutor, apresentou-se com um vestido longo, branco, no centro do palco de um teatro. Coube ao público cortar com uma tesoura o vestido, deixando Yoko nua. A alta sociedade de Tokyo ficou estarrecida. Como era de se esperar, condenou-a. Mas, o protesto de Yoko ganhou as páginas dos mais importantes jornais do mundo. Trinta e nove anos depois em Nova York, segundo a BBC, Yoko teria dito que queria recriar a performance por causa das mudanças políticas ocorridas desde os ataques do dia 11 de setembro de 2001. Alguns jornais chegaram a publicar manchetes no estilo: “Performance de Yoko Ono poderá ter nudez 'pela paz mundial'.”
Em declaração feita no teatro, Yoko disse: “Força e intimidação estavam no ar. As pessoas ficaram sem voz. Cut Piece é a minha esperança pela paz mundial. Quando realizei esse trabalho pela primeira vez, em 1964, eu o fiz com turbulência e um pouco de raiva no meu coração. Dessa vez, eu o farei com amor que tenho por você, por mim e pelo mundo. Venha e corte um pedaço de minhas roupas, um pouco menor do que um cartão postal e envie para uma pessoa que você ama.” Duzentas pessoas compareceram. O vestido de Yoko era preto. O primeiro a cortar um pedaço do vestido foi Sean, filho de Yoko com John Lenon.
Na minha mente cada vez mais a contextualização se tornava distante, Japão, Mulher Oriental, Vietnã, 11 de Setembro, nada daquilo tinha a ver comigo nem com a Unirio, Rio de Janeiro, 2010...Na verdade, eu achava anteriormente, que a proposta de Yoko era mostrar a passividade do artista. Uma inversão de papéis, o artista no “Cut Piece” seria manipulado, estaria executando um papel de passividade no “jogo” com a sua “plateia”.
Preferi então enveredar por esse questionamento. Pegaria a “forma” pensada por Yoko e questionaria exatamente a inversão da forma convencional proposta pelo teatro/cinema/televisão, onde o espectador assiste passivamente o que o artista propõe. Brincar literalmente com os papéis e questionar Ativo/Emissor X Passivo/Receptor. Laura Lima já tinha se utilizado do conceito do “Cut Piece” em 2001, substituindo o corpo humano por uma cabra. O que ratificava a minha idéia de pegar a construção de uma performance e relocá-la em um outro conceito. Senti que apesar da forma escolhida ser bem próxima , a descontextualização causada pelos deslocamentos de cultura, tempo, espaço, quantidade de performers acarretariam em uma observação e resultado bastante distintos da original.
PRIMEIRA MISSÃO
Reconstituição do Cut Piece na Unirio - Rio de Janeiro, 03 de Maio de 2010.
Horário: 14:45 às 15:50
Performers: Claudio Althiery, Rany Carneiro, Tatiane Santoro e Vanessa Reis
Era uma segunda feira, com um clima ameno, no horário onde há uma grande concentração de alunos no Centro de Letras e Artes da Universidade. Escolhemos um local de passagem, todos os alunos de Artes Cênicas e Música teriam que passar pelos quatro perfomers. Colocamos dois cartazes no chão com o dizeres: “Cut Piece” (Corte Um Pedaço). Optamos em ficar, formando um quadrado com cada componente sentado num pequeno banco em cada ponta voltados para dentro (dessa forma conseguíamos observar uns aos outros) e com um pote no meio desse quadrado contendo quatro tesouras.
Tão logo nos posicionamos formou-se um semi círculo em torno de nós. Fomos observados. Deixamos de ser alunos/pessoas e nos transformamos em objetos. Até por estarmos numa Academia de Artes, não havia um estranhamento, mas sim um reconhecimento ou simplesmente um descartamento. A participação do público foi bastante rica, alguns iam cortavam, outros tentavam criar uma obra de arte com nossos corpos e figurinos, uns atuavam sobre os quatro, outros apenas em um ou dois. Tinham os que pediam permissão, outros queriam nos ver pelados.
Depois que Vanessa e Tati chegaram ao fim em suas propostas, estabeleceu-se, por parte da platéia um jogo de competição. Chegaram até a propor um “bolão” para ver que iria se o último a resistir à pressão. Quem levaria a melhor Claudio (o representante masculino) ou Rany (a representante feminia)?
A partir desse estágio, começaram a interferir de uma forma mais “terrorista” para testar os nossos limites, tentando desnudar a mim e minha companheira assim como cortar o cabelo dela. O que fez que a proposta da performance se descaracterizasse e virasse um joguinho de sado masoquismo.
Havíamos pensado em fazer uma segunda fase no Calçadão de Copacabana, após a execução na Unirio. Vimos que a potencialidade da experiência performática era muito maior do que imaginávamos e preferimos abortar essa missão e realizá-la novamente em um outro ambiente fechado. Pois já que no “nosso seguro ambiente” algumas atitudes tinham sido propositadamente feitas para nos desafiar e testar os nossos limites, como seria isso no meio da rua?
SEGUNDA MISSÃO
Reconstituição do Cut Piece na Livraria da Travessa da Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, no lançamento do Livro “Performance.Ensaio” de Tânia Alice em 19 de Maio de 2010. Horário: 19:00 às 20:00.
Performers: Claudio Althiery e Rany Carneiro.
Dessa vez, apenas eu e Rany, sem cartazes e sem estarmos no “nosso ambiente”. Um homem e uma mulher, sentados um de frente pro outro no meio de livros, outros performers executando as suas partituras, taças de vinho e poesia.
O início foi muito semelhante ao da Unirio, a observação, as perguntas de algumas pessoas meio que pedindo permissão para interagir e a pronta participação do público que optou mais em criar figuras, obras de arte, customizar nossas vestimentas, até fazerem carinho, rezarem, comunharem com a experiência performática. Porém, novamente, quando a roupa já havia se transformado em um tapa sexo, o joguinho – sado masoquista de tentar desnudar-me para ver “meu limite”, se impôs. Fazendo que eu terminasse a performance por acreditar que ela havia se esvaziado e se transformado em uma outra questão.
O ATOR PERFORMER
DA PASSIVIDADE DO GESTUAL, PASSANDO PELA CRIAÇÃO E CAINDO NO SEXUAL
Existem algumas afirmações que na performance, é o artista que está presente, ele na sua essência e não como num espetáculo em que é o personagem que executa a ação dramática. Não sei se isso é tão fácil de se estabelecer. Afinal de contas temos um estágio de presença muito forte na performance. É verdade que não estava “atuando no papel de”, porém no caso do “nosso Cut Piece”, eu estava num estado de passividade, de serenidade quase budista, um estado que não é o meu no dia a dia...Sim, aquele era o meu corpo, mas é fato que naqueles momentos, eu não era eu. Não seria como se Claudio Althiery estivesse no papel de: O PERFORMER? Na performance da Unirio ouvi de um aluno: “Vou testar a sua dignidade”. Com certeza, se fosse eu, teria revidado, respondido, teria tido uma atitude ativa e não passiva como a do “ARTISTA PERFORMER”. E o mais instigante era que a nossa passividade era encarada como desafiadora por parte do público que entrava numa “competição” para testar o nosso limite. A potencialidade do outro como criador é enorme, apesar do jogo ser proposto por nós, são os outros que conduzem, que interpretam, que interagem por conta própria, de acordo com suas expectativas, desejos, cultura, bloqueios, traumas e limites.
Em termos de proposta, o Cut Piece, foi executado mais no sentido da forma. O diálogo com o original acabou se estabelecendo assim naturalmente, não se tratou de uma réplica e sim em algo legítimo. Se for analisado num caráter de crítica poderão até considerar que é uma profanação do original e que deterioramos a obra, mas não encaro assim, acredito na multiplicidade de opções e resultados que uma performance permite. Acredito inclusive que possamos pensar na aplicabilidade do Reenactment como forma de mapear o comportamento sócio-cultural-político de alguns grupos. Afinal mudam-se os emissores, os receptores, o contexto social-cultura-politico, a época. E uma infindável gama de variantes que é óbvio que interfere não só no processo quanto no resultado em si.
Essa dupla experiência vivida por mim e pela Rany é uma prova irrefutável de como cada performance é única. Estávamos os dois nos mesmo dias, nos mesmos locais, com os mesmos “públicos”, executando a mesma partitura (serenidade) e obtivemos resultados distintos, ações distintas...Por mais semelhante que tenha sido a nossa experiência, passamos por momentos distintos. Especialmente se encararmos do ponto de vista provocativo e sexual. Queriam provocá-la cortando o cabelo dela e a mim fazendo que a minha bunda ficasse a mostra. Enquanto eu estava mais coberto, as mulheres atuavam em mim, quanto mais desnudo eu ficava a participação masculina se intensificava, não havendo falsos pudores machistas em me tocar, em nitidamente me desnudar. Tal fato se repetiu nas duas ocasiões.
A noção de coisificação do performer, em Cut Pieces é muito forte, em determinados momentos o performer se transformou num objeto nas mãos dos “atores sociais” que participavam de forma ativa. Há uma expansão do conceito de “coisa” – Éramos “uma coisa” específica para um, para outros éramos “todas as coisas possíveis” especialmente quando criavam várias “coisas” com os nossos corpos e tinham os que nos olhavam e não nos enxergavam dando uma conotação que éramos “coisa nenhuma”. Em determinados momentos me senti como um dos bonecos de Kantor, desprovido de alma, sendo só matéria.
A conexão com o espaço foi muito semelhante nos dois momentos. Era apenas um espaço. Não havia um incomodo, dispersão ou tensão. A disposição dos participantes que estavam próximos uns dos outros permitia identificação imediata quando os outros performers estavam sendo “desafiados”. Ocasionando um “sentimento” de agente, vouyer e objeto. Éramos matéria, mas também assistíamos uma “coisa” igual a nós ser manipulada, tocada, provocada...
Fato que por estarmos no Brasil/Rio de Janeiro, a presença da sexualidade é algo muito presente. Havia uma “tensão”, sempre quando a performance avançava, quanto menos pedaços haviam para serem cortados, a questão da sexualidade aumentava. O desnudamento era algo que mexia claramente com as pessoas. Só essa questão já distanciava de uma forma enorme da proposta inicial e da proposta de 2003 de Yoko Ono. O resultado que obtivemos com a nossa experiência sem sombra de dúvidas passou bem distante do concebido originalmente.
Sinto como se a nossa "recriação" fosse um "West Side Story" que pega a fórmula de "Romeu e Julieta" e transforma em uma outra história. Não partimos de um zero, mas recriamos o original em uma outra coisa também original. Não gosto muito do termo "Reconstituição" para definir o que fizemos, porque reconstruir pra mim é executar de forma o mais semelhante possível algo que já foi constituído, o que não foi o nosso caso, nem tinha a pretensão.
Essas recriações do “Cut Piece”, me despertaram alguns questionamentos sobre: 1- A postura do artista 2- A coisificação do artista 3- A sexualidade sempre ligada ao corpo do artista 4- A duplicidade de fazer essa performance com um outro artista, me transformando em coisa e observador (do outro). 5- A possibilidade de fazer um mapeamento do público.
"Essa noite vou te confessar muitas coisas e irei mostrar muitas coisas... Eu, os meus amigos, os meus inimigos e os meus desafetos contaremos alguns segredos inconfessáveis... O que vai acontecer aqui, vai morrer aqui! Hoje à noite, na hora em que você pousar a tua cabeça no travesseiro, você pode até pensar em mim, pensar em nós, mas isso vai ser um segredo nosso! Ninguém precisa saber o que faremos naquela hora em que os justos dormem e os impuros sonham" Nesse Lugar, Quase tudo é permitido!